A escolha do meu alimento

publicado 03/06/2018 09:51, modificado 03/06/2018 09:51

Uma questão de consciência individual, social e ambiental

por Célia Regina de Carvalho*

 

Não herdamos a terra de nossos pais; 
nós a tomamos emprestada de nossos filhos.
Sabedoria andina

 

Hipócrates, médico grego – 460 a.C a 377 a.C (?), dizia: que teu remédio seja teu alimento e que teu alimento seja teu remédio. A relação entre alimento puro e vida saudável vem da Antiguidade e não é novidade para ninguém. No entanto, hoje, ainda que se evitem os enlatados, embutidos, congelados etc. e se dê preferência a frutas e verduras frescas, pode-se estar muito longe de um alimento puro.

Com a promessa de acabar com a fome no mundo, a chamada Revolução Verde conquistou os produtores rurais. Baseada em sementes melhoradas geneticamente, utilização de maquinário pesado, adubo solúvel (NPK), uso intensivo de herbicidas e monocultura, num primeiro momento essa prática agrícola realmente aumentou a produção. Mas não durou muito.  As lavouras se mostraram cada vez mais suscetíveis ao ataque de pragas e a demandar maior quantidade de adubo - no Brasil, em uma década, a utilização de adubo subiu de 0,3 para 1,2 Kg por hectare. Surgiram novas pragas e doenças que se tornavam mais resistentes aos venenos. Com isso, produtos cada vez mais tóxicos passaram a ser despejados nas lavouras e pastagens. Grandes áreas tornaram-se salinizadas. A contaminação da água e do ar levou ao adoecimento e extinção de peixes e animais. Muitos pequenos produtores tiveram que abandonar suas terras por estarem esgotadas ou por não darem mais conta de arcar com os altos custos dos insumos. Os trabalhadores rurais, que tiveram seu trabalho substituído pelas máquinas, viram-se obrigados a abandonar o campo.

O saldo que temos dessa prática: em nível individual, perda da saúde; no social, miséria; e no ambiental, desertificação e extinção de grande parte de espécies animais e vegetais.

Em busca da manutenção ou do resgate da fertilidade do solo, surgiu em 1924, na Alemanha, a Agricultura Biodinâmica. Ao aliar o conhecimento de antigos camponeses às suas pesquisas, Rudolf Steiner1 nos legou os chamados Preparados Biodinâmicos. A utilização desses preparados, a observação dos astros, a valorização do camponês e o cuidado no manejo de plantas e animais – o que inclui biodiversidade e conforto – se traduzem na vitalidade do solo e formam as bases desse método agropastoril. Muitas escolas surgiram a partir da Biodinâmica e, de certa forma, são uma redução desta. Mas todas cuidam de não contaminar o meio-ambiente.

O resultado desse manejo é um produto de acentuada qualidade em cor, textura, cheiro e sabor. Ao consumi-lo, garantimos nossa saúde e contribuímos para a permanência do homem no campo, para a pureza da água e do ar, para a manutenção da biodiversidade. Enfim, para a continuidade da vida no planeta Terra.


1 Filósofo e educador austríaco (1861 – 1925), fundador da Antroposofia

*Célia Regina de Carvalho é servidora lotada na Escola Judicial e membro da comissão.