II Simpósio sobre Qualidade de vida no Trabalho: Em debate, a relação ambiente de trabalho e saúde

publicado 23/10/2014 18:59, modificado 23/10/2014 20:59

No painel de debates sobre "Organização do Trabalho", que marcou na manhã desta quinta-feira, dia 23, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, o início dos trabalhos do II Simpósio Qualidade de Vida no Trabalho, os professores e pesquisadores Admardo Bonifácio Gomes Júnior, Giselle Reis Brandão e Fernanda Tarabal Lopes apresentaram aos participantes alguns conceitos com o objetivo de auxiliá-los, nesses dois dias de trabalho, a identificar, nas singularidades da atividade de cada um, o que é importante na relação entre a organização do trabalho e a saúde.

II Simpósio sobre Qualidade de vida no Trabalho: Em debate, a relação ambiente de trabalho e saúde (imagem 1)

A mesa foi presidida pelo engenheiro do trabalho Gustavo Henrique Mendes Gabriel da Silva, coordenador do Programa Agente de Saúde do TRT-MG., que abriu os trabalhos afirmando que "não há continuidade, não há celeridade, se a saúde e a segurança do trabalho de magistrados e servidores não merecerem a priorização devida."

Manter o desejo pelo trabalho

Falando sobre Ergologia, como abordagem da produção de saberes que coloca em debate os saberes constituídos (normas de trabalho) e os saberes investidos na atividade humana (saberes da experiência), visando a um uso de si saudável, o painelista Admardo Bonifácio Gomes Júnior assegurou que a multiplicação de regulamentações e os formalismos não garantem a segurança e a saúde no trabalho. Para ele, "o que importa é cuidar de se preservar na atividade, como um valor, o desejo e a possibilidade de lidar com os obstáculos, transformando-os em meios de ação". Em resumo, "é preciso manter o desejo da pessoa pelo trabalho".

II Simpósio sobre Qualidade de vida no Trabalho: Em debate, a relação ambiente de trabalho e saúde (imagem 2)

Caldado no conceito de saúde de George Canguillem, segundo o qual saúde é vida sadia, uma vida confiante em sua existência, em seus valores, é uma vida em flexão, em maleabilidade, quase suave, Admardo falou do trabalho prescrito e da necessidade que temos, como condição vital, de não ficarmos restritos às normas antecedentes, consubstanciadas no jeito de fazer forjado pelas práticas anteriores.

O trabalho nunca é só meu

Com abordagem sobre "Clínica da Atividade", que seria um campo de intervenção no trabalho que ajuda o profissional a solucionar seus problemas concretos de trabalho partindo da atividade, a pesquisadora Giselle Reis Brandão ensinou que a atividade envolve três elementos: O sujeito, o objeto e o outro. Que o objeto tem características e exigências que devem, a priori, ser observadas pelo sujeito, que pode interferir na sua confecção. "Mas o trabalho de um passa e perpassa pelo outro, que também tem as suas exigências", advertiu ela para mostrar que no trabalho tem-se que encontrar o caminho adequado às características do objeto e às exigências do autor e do colega. De acordo com essa concepção, o indivíduo age também sobre os outros e com os outros. O meio trabalho não é só dele. Vem da atividade do outro e vai para a atividade do outro, e o trabalho somente é possível nessa confluência com a atividade dos outros. Assim, a experiência individual não é só do autor, é coletiva, envolvendo um conjunto de normas, de formas de agir e de pensar cristalizadas naquele meio.

Psicodinâmica do Trabalho

A painelista Fernanda Tarabal Lopes baseou sua palestra, sobre Psicodinâmica do Trabalho, no conceito de Dejours sobre trabalho coletivo. Disse que as vivências de trabalho são fontes de sofrimento e prazer. Todo trabalhador tem uma subjetividade, uma forma de ser construída ao longo de sua vida, que pode interferir negativamente no seu trabalho se ficar repetindo os problemas de história de vida, com perpetuação do sofrimento. Mas, se ele consegue não ficar valorizando essa história, ele pode se "ressignificar" (sic), crescer e alcançar prazer no trabalho.
Para a palestrante é fundamental que existam espaços públicos no trabalho, com possibilidade do uso da palavra, da expressão autêntica, sem máscaras. Segundo ela, a falta de relações autênticas e o trabalho mecanizado e burocratizado inibem o estabelecimento de um espaço público.

A palestrante ainda tratou dos aspectos da mobilização subjetiva, do reconhecimento do grupo pela contribuição individual, e criticou a banalização do mal, consubstanciada na pregação de valores como competitividade acirrada e individualismo, que transformam o colega em rival, inimigo, como se isso fosse natural.

E essa competição, o individualismo, também gera o medo, inclusive de se expressar, de se colocar perante os pares e as chefias.

II Simpósio Qualidade de Vida no Trabalho tribunal por meio dos programas "Servidor em Pauta" e "Agente de Saúde", pela Escola Judicial, no âmbito do "Programa de Formação continuada de Magistrados", e pelo programa "Trabalho Seguro", do Conselho Superior da Justiça do Trabalho, e conta com o apoio da Diretoria da Secretaria de Recursos Humanos, da Faculdade de Direito da UFMG e da Editora Fórum. (Texto: Walter Salles / Fotos: Leonardo Andrade)

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